José Pedro Zúquete é um investigador respeitado, especialista no populismo e movimentos políticos de direita. Uma das marcas essenciais da obra é a adoção de uma definição de populismo não como ideologia, mas como forma de fazer política, distando de interpretações em linha com Cas Mudde.
Inscrevendo o populismo numa linha do tempo, Zúquete dá nota das vagas populistas ao longo da história do Ocidente, com o American People Party (“POPS”) que no final do séc. XIX mobilizou milhões de pessoas nos EUA em torno de uma ideia de solidariedade de classe e combate aos excessos do capitalismo; seguindo, para os casos sul-americanos, a partir de 1945, de Velasquismo no Equador, o Peronismo na Argentina e o Varguismo no Brasil, baseados na mobilização nacionalista das massas descamisadas, e com uma nova vaga na viragem para o século XXI com revolução bolivariana de Hugo Chávez, os regimes de Evo Morales na Bolívia e Correa no Equador, para chegar aos casos mais recentes de Jair Bolsonaro, Donald Trump e Narendra Modi, de uma direita nacionalista étnica, racial e das “pessoas de bem”.
A partir deste cenário internacional e histórico de eventos e casos populistas, Zúquete irá mergulhar no contexto europeu, dando conta do que poderíamos chamar de DNA do populismo. Para o autor é Le Pen pai quem inaugura o populismo de direita na Europa, dando origem a uma vaga que se espalha pelo continente, sobretudo a partir de 1980.
É nele que se encontram as máximas de “devolver a palavra ao povo” e “dizer alto aquilo que as pessoas pensam em silêncio”, bem como os temas centrais da democracia capturada pelos interesses da elite político-mediática, da necessidade uma democracia direta na forma de referendos e outros instrumentos similares, a ameaça da imigração massiva à sobrevivência dos povos europeus, e no cenário da globalização a oposição entre o povo patriota e nacionalista e os globalistas antipatriotas. No entanto, como o autor alerta, embora classificada como uma grande família política de direita populista radical, a verdade é que existe uma grande diferença entre todos os partidos populistas de direita europeus.
Zúquete define o populismo como uma dicotomia central entre povo e elites, entendendo-o como ideologia adaptável, estratégia de poder e discurso performativo. O populismo opõe os de baixo aos de cima e representa-se por uma liderança carismática, sendo dinamizado por queixas populares contra o sistema. Em termos democráticos, propõe uma soberania popular direta contra instituições vistas como corruptas, dando origem à ideia de democracia iliberal. O autor destaca que a ameaça populista varia conforme a robustez institucional, com exemplos como Hungria, Polónia, mas também Suíça e Áustria, onde o impacto foi menor.
Em Portugal, Zúquete identifica várias manifestações históricas de populismo: o "populismo militar" de Sidónio Pais, Delgado, Spínola e Otelo; o "populismo regenerador" de Sá Carneiro, Manuel Monteiro e Paulo Portas no CDS, este último combinando moralismo, religiosidade e oposição ao sistema. À esquerda, destaca o Bloco de Esquerda como populismo antielites e moralizante, usando uma retórica de dois Portugais (os dominados vs. dominantes). Outros casos incluem Fernando Nobre e Marinho e Pinto, ambos com discursos messiânicos e antipartidários.
O Chega é apresentado como continuidade radicalizada do populismo regenerador, centrado na moralização, no produtivismo e na divisão povo/elite. Ventura recorre ao estilo agressivo e ao uso das redes sociais, integrando elementos messiânicos e identitários. Embora nada disto seja novo, o contexto contemporâneo e o estilo mais brusco diferenciam-no. Zúquete conclui com a tensão entre portugalidade (identidade nacional oficial) e novas formas de identitarismo, como o antirracismo comunitarista, apontando para futuros embates populistas em torno da identidade coletiva portuguesa.
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