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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Espanha: até quando “bella ciao”?

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Como uma fórmula química precisa e eficiente, os valores nacionalistas iliberais que formam a ideologia nativista — a defesa das identidades culturais e biológicas nacionais — fundiram-se com o reality show contínuo das redes sociais. O resultado é a criação de influencers que se alimentam do algoritmo e o alimentam com soundbites, numa reciprocidade que gera milhões de seguidores: militantes acríticos de notícias falsas, distorções, radicalismos morais e soluções para lá do muro da democracia.

Assim é o caso de Luis Pérez Fernández, conhecido como Alvise Pérez, uma versão espanhola de Charlie Kirk, que emergiu nas redes sociais através do apelo reacionário e da exploração das chamadas “baixas emoções” populares.

Nas eleições europeias de 2024, Alvise concorreu liderando uma lista independente (agrupación de electores) sob a designação “Se Acabó La Fiesta” (abreviado SALF), tendo eleito três eurodeputados.

A designação adotada é uma tradução cirúrgica do discurso populista de direita radical que se vem consolidando, explorando as falhas da globalização e da democracia liberal em responder às mudanças sociais, económicas e demográficas aceleradas, deixando largas fatias da sociedade desprotegidas ou com uma sensação de insegurança económica permanente. “Se Acabó La Fiesta” significa que é tempo de pôr cobro ao arraial de corrupção que a democracia tem representado, uma exploração falaciosa da nostalgia dos períodos autoritários, que permite a confusão entre falta de acesso à informação com ausência de corrupção.

Como parte desta direita radical internacional, Alvise aposta no populismo antissistema combinado com o iliberalismo moral e o liberalismo económico radical, defendendo menos impostos e maior fechamento social.

A sua retórica agressiva, difamatória e conspirativa mostra que está a disputar terreno ao “vox”, procurando uma ultrapassagem pela direita ao partido de Santiago Abascal, defendendo uma política de deportação de imigrantes ilegais sem paralelo.

Na sua apresentação da candidatura do seu movimento às próximas eleições legislativas, a terem lugar em 2027, num verdadeiro comício populista e messiânico, característica desta direita de feição MAGA, Alvise passou por todo o manual nativista iliberal – retórica e imageticamente próximos do fascismo –, declarando que “Espanha será livre ou não será”, e defendendo que “os partidos tradicionais morreram” e que “o Estado deve ser devolvido aos cidadãos honestos”.

Perante o minguar da esquerda, que se suicidou nas políticas microidentitárias, com o PP pressionado, o PSOE desgastado, Espanha prepara-se cada vez mais para uma disputa entre radicalismos de direita. A pergunta que se impõe é: até quando o “bella ciao” será capaz de aguentar este apelo generalizado ao nativismo?

terça-feira, 24 de junho de 2025

Populismo, Lá Fora e Cá Dentro

José Pedro Zúquete é um investigador respeitado, especialista no populismo e movimentos políticos de direita. Uma das marcas essenciais da obra é a adoção de uma definição de populismo não como ideologia, mas como forma de fazer política, distando de interpretações em linha com Cas Mudde.

Inscrevendo o populismo numa linha do tempo, Zúquete dá nota das vagas populistas ao longo da história do Ocidente, com o American People Party (“POPS”) que no final do séc. XIX mobilizou milhões de pessoas nos EUA em torno de uma ideia de solidariedade de classe e combate aos excessos do capitalismo; seguindo, para os casos sul-americanos, a partir de 1945, de Velasquismo no Equador, o Peronismo na Argentina e o Varguismo no Brasil, baseados na mobilização nacionalista das massas descamisadas, e com uma nova vaga na viragem para o século XXI com revolução bolivariana de Hugo Chávez, os regimes de Evo Morales na Bolívia e Correa no Equador, para chegar aos casos mais recentes de Jair Bolsonaro, Donald Trump e Narendra Modi, de uma direita nacionalista étnica, racial e das “pessoas de bem”.

 

A partir deste cenário internacional e histórico de eventos e casos populistas, Zúquete irá mergulhar no contexto europeu, dando conta do que poderíamos chamar de DNA do populismo. Para o autor é Le Pen pai quem inaugura o populismo de direita na Europa, dando origem a uma vaga que se espalha pelo continente, sobretudo a partir de 1980.

É nele que se encontram as máximas de “devolver a palavra ao povo” e “dizer alto aquilo que as pessoas pensam em silêncio”, bem como os temas centrais da democracia capturada pelos interesses da elite político-mediática, da necessidade uma democracia direta na forma de referendos e outros instrumentos similares, a ameaça da imigração massiva à sobrevivência dos povos europeus, e no cenário da globalização a oposição entre o povo patriota e nacionalista e os globalistas antipatriotas. No entanto, como o autor alerta, embora classificada como uma grande família política de direita populista radical, a verdade é que existe uma grande diferença entre todos os partidos populistas de direita europeus.

Zúquete define o populismo como uma dicotomia central entre povo e elites, entendendo-o como ideologia adaptável, estratégia de poder e discurso performativo. O populismo opõe os de baixo aos de cima e representa-se por uma liderança carismática, sendo dinamizado por queixas populares contra o sistema. Em termos democráticos, propõe uma soberania popular direta contra instituições vistas como corruptas, dando origem à ideia de democracia iliberal. O autor destaca que a ameaça populista varia conforme a robustez institucional, com exemplos como Hungria, Polónia, mas também Suíça e Áustria, onde o impacto foi menor.

Em Portugal, Zúquete identifica várias manifestações históricas de populismo: o "populismo militar" de Sidónio Pais, Delgado, Spínola e Otelo; o "populismo regenerador" de Sá Carneiro, Manuel Monteiro e Paulo Portas no CDS, este último combinando moralismo, religiosidade e oposição ao sistema. À esquerda, destaca o Bloco de Esquerda como populismo antielites e moralizante, usando uma retórica de dois Portugais (os dominados vs. dominantes). Outros casos incluem Fernando Nobre e Marinho e Pinto, ambos com discursos messiânicos e antipartidários.

O Chega é apresentado como continuidade radicalizada do populismo regenerador, centrado na moralização, no produtivismo e na divisão povo/elite. Ventura recorre ao estilo agressivo e ao uso das redes sociais, integrando elementos messiânicos e identitários. Embora nada disto seja novo, o contexto contemporâneo e o estilo mais brusco diferenciam-no. Zúquete conclui com a tensão entre portugalidade (identidade nacional oficial) e novas formas de identitarismo, como o antirracismo comunitarista, apontando para futuros embates populistas em torno da identidade coletiva portuguesa.

 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Marine Le Pen compara-se a Martin Luther King após condenação

Após a sua condenação por desvio de fundos públicos, a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, comparou a sua luta política à de Martin Luther King Jr., enfatizando a intenção de conduzir uma campanha pacífica e democrática. Num discurso por videoconferência durante o congresso do partido italiano Liga, de Matteo Salvini, Le Pen afirmou: "A nossa luta será pacífica e democrática, e o exemplo vem de Martin Luther King". Ao comparar-se a Martin Luther King, Marine Le Pen reivindica um património histórico que não lhe pertence, não tanto pelas questões raciais, mas sobretudo por Martin Luther King representar uma luta pela dignidade racial e política enquanto Le Pen representa o reforço de uma ideia de cidadania com base na identidade biocultural que exclui, precisamente, as minorias. Esse modelo reforça fronteiras entre "nós" e "eles", minando os princípios universalistas que King encarnava, representando uma tentativa sofisticada de reverter o eixo da vitimização política, um gesto retórico cada vez mais comum entre populistas autoritários. 

terça-feira, 16 de abril de 2024

A emergência do Estado Securitário

Sovietização, marxismo cultural, e termos semelhantes são usados cada vez mais no léxico político português, manifestando a importação das guerras culturais norte-americanas e uma trumpização da direita portuguesa.

Na apresentação do livro “Identidade e Família”, Pedro Passos Coelho, a páginas tantas, afirma que as famílias precisam de ser ajudadas na educação dos filhos e no ensino, mas dificilmente o conseguiremos com uma espécie de sovietização do ensino em que queremos dirigir o ensino em favor de uma determinada perspetiva que nem sequer é dominante na sociedade, quanto mais nas famílias”. A referência a uma “sovietização do ensino” tem um contexto concreto que poderá escapar ao leitor menos familiarizado com as chamadas «guerras culturais», um conflito sobre matérias de natureza imaterial, isto é, que operam no plano “dos costumes”, como interrupção voluntária da gravidez, direitos das minorias sexuais, identidade de género, e temas similares que apontam a uma disputa entre progressismo e conservadorismo, a partir de um tendencial e crescente prisma de inegociabilidade, em que o objetivo é silenciar o campo oposto. 

O recurso ao termo “sovietização” surge num quadro de parentesco ideológico à referência a “marxismo cultural”, e refere-se à crença, por parte de setores mais conservadores, de que está em curso um plano intencional de combate à família (leia-se família heterossexual) e aos valores do Ocidente, que é operado a partir do Ensino, com a adoção, de uma forma ideológica e programática, das teses da Escola de Frankfurt. A Escola de Frankfurt foi uma corrente de pensamento filosófico e sociológico do pós-I Guerra Mundial e do contexto do surgimento do nazismo, e agregou alguns dos maiores pensadores europeus daquele período, muitos deles de ascendência judaica, que se propuserem a avaliar criticamente o contexto em que viviam, a crise dos paradigmas científicos ocidentais do iluminismo e do positivismo, e a fazer uma releitura do marxismo. Essa escola de pensamento deu origem à Teoria Crítica e aos seus desenvolvimentos teóricos posteriores, que incluíram a presença do pensamento de Antonio Gramsci sobre contrahegemonia cultural. Em geral, trata-se de um pensamento progressista de feição pós-marxista e pós-gramsciana que advoga que o mundo se organiza em torno de estruturas e discursos que perpetuam poder e uma supremacia cultural, económica, social, de matriz ocidental, em que determinados grupos sociais são oprimidos, sendo que a superação dessa opressão não é feita através de mecanismos das democracias liberais capitalistas, mas através de uma mudança total de paradigma que supere a natureza exploradora, segregadora, opressiva do capitalismo. Trata-se, portanto, de uma releitura da luta de classes para incluir uma luta entre cultura hegemónica e grupos sociais oprimidos, alavancada num arcaboiço teórico complexo que incluem Estudos de Raça, Estudos de Género, Estudos de Gordura, etc., que se dedicam a leituras contrahegemónicas. 

Esse processo intelectual é visto como uma intenção ideológica progressista e radical de Esquerda, formadora da chamada “Cultura Woke”, que ameaça a paz social e os ténues equilíbrios da tradição ocidental. A contrarresposta tem vindo de setores mais radicais e ultraconservadores da direita, que utilizam as teses da Teoria Crítica como argumento para uma contraofensiva em favor “da família” e “da tradição”, que resultam num programa de contração até ao núcleo elementar dos direitos das mulheres e das minorias sexuais, étnicas e raciais. É, em suma, uma reação de “pânico moral” não apenas às mudanças sociais, mas a um setor progressista também ele moralizador. 

Sucede, contudo, que a vaga “woke” que assolou os Estados Unidos, com naturais exageros de uma onda revolucionária da Nova Esquerda imaterial, nunca teve efetivo impacto em Portugal, tirando o fugaz episódio sobre corpos e representações de personagens trans no Teatro São Luiz. 

O que se verifica é, portanto, uma importação de uma agenda trumpista de «guerras culturais» para Portugal, através de um setor mais ultraconservador da direita portuguesa, que transcende os muros do Chega, e ao qual Passos Coelho decidiu se associar, seja por mudança do seu perfil político ou porque notou que o vento sopra na direção de um recomposição da Direita Ocidental, de que o Partido Republicano é exemplo, mas que se estende pela Europa, com Órban na Hungria, Le Pen em França ou Meloni em Itália.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Anielle Franco e a leitura marxista do antirracismo

 

Anielle Franco, ministra brasileira da Igualdade Racial, e irmã de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada por (ao que tudo indica) forças bolsonaristas, é, tal como a sua irmã foi, uma importante ativista antirracista, com uma trajetória académica significativa na área, nomeadamente na North Carolina Central University e na Florida A&M University, instituições historicamente ligadas ao pensamento negro.

O pensamento e a ação de Anielle Franco são marcados por uma tradição teórica rica conhecida por Teoria Crítica, concretamente a Teoria Crítica da Raça, na esteira da qual se desenvolve noções como “racismo estrutural”, “opressão racial” e “intersecionalidade”, categorias que permitem uma compreensão e ação sobre as dinâmicas racializadoras das sociedades humanas, em particular nas sociedades de passado colonial e esclavagista, nomeadamente os Estados Unidos da América, onde o racismo deteve e detém uma força normativa profunda, sendo ao mesmo tempo estrutural, sistémico, institucional e legal. Basta lembrar as leis Jim Crow e o impacto atual das mesmas. No entanto, devido aos trânsitos entre a Universidade e os movimentos sociais, a Teoria Crítica foi adquirindo uma dimensão politizada, já que ela se propõe a ser um instrumento de transformação social, o que faz com que as categorias deixem de ser instrumentos de análise e passem a ser pressupostos ideológicos.

 

Devido às mudanças nas sociedades ocidentais, em particular no eixo norte-ocidental, as batalhas dos movimentos sociais passaram a focar-se, sobretudo, em questões pós-materiais, tendendo a desligar essas questões de questões materiais como pobreza. A leitura é, evidentemente, de inspiração marxista (pensamento que, de resto, está na base da Teoria Crítica), considerando que é preciso mudar a superestrutura, concretamente a cultura, para que ela mude a estrutura social de base. É nessa esteira que vamos encontrar uma hiperatenção à linguagem e ao pensamento, que levam a uma crença de que a sociedade muda por decreto e por policiamento público (cuja manifestação é o cancelamento nas redes sociais). É por isso que a pensadora negra @pretaderodinhas vem salientando as incongruências do ativismo de Anielle Franco e a sua equipa. Em setembro, Marcelle Decothé, assessora de Anielle Franco criticou a “torcida” do São Paulo, através das palavras “Torcida branca, que não canta, descendente de europeu safade... Pior tudo de pauliste”, escreveu. No dia de ontem, a ministra afirmou que o termo “buraco negro”, o qual define uma região no espaço com campo gravitacional tão intenso que também absorve a luz, é “racista”.

O racismo é, inegavelmente, um problema endémico das nossas sociedades, que precisa ser combatido. É preciso uma política intransigente de reversão de lógicas enraizadas de segregação. Tenho as maiores dúvidas que esta dinâmica de inspiração marxista, que produz uma dicotomia racial estanque e absoluta, numa versão reciclada da “luta de classes”, que passa por uma ação sobre a linguagem, uma desconsideração contextual e por uma dinâmica de purificação social do dissenso – em que não basta ser antirracista, é preciso que se o seja de uma determinada maneira, que exclui inclusive ativistas negros desalinhados com um conjunto de dogmas – seja o caminho. De resto, já dizia McWhorter que esta lógica capturou as populações negras e lhes é prejudicial. Em nome da liberdade e da justiça social, aceito visões contrárias e que até possa estar enganado.

 

sábado, 11 de novembro de 2023

Feminismo e Batom

Comumente considerado um produto de beleza feminina, símbolo de sensualidade e feminilidade, foi, ao mesmo tempo, durante os dois últimos séculos, um símbolo de empoderamento feminino, sobretudo nas suas cores vibrantes que desafiavam a ideia de recato. No século XIX, por exemplo, as sufragistas usavam batom vermelho para chamar a atenção para a sua causa. Elas acreditavam que o batom era uma forma de desafiar os estereótipos sobre as mulheres como seres frágeis e dependentes. Contudo, os últimos anos marcaram uma viragem profunda na interpretação feminista sobre o batom. Em razão de um enquadramento teórico-ativista de inspiração pós-marxista, o batom passou a ser classificado, por largos setores do movimento feminista, como símbolo do patriarcado e da sua opressão sobre as mulheres e consequente objetificação sexual. 



Em razão desse enquadramento ideológico, emerge uma agenda feminista que determina o que deve ou não deve uma mulher fazer, vestir, aceitar sexualmente, a fim de ser uma «verdadeira» feminista, praticando uma espécie de «opressão do bem», o que em última instância não deixa de ser uma forma de opressão. 



Ora, considero que o combate ao patriarcado não é sobre alguém ditar o que as mulheres devem ou não fazer com seus corpos, mesmo que esse alguém seja uma mulher que se considera representante legítima e líder intelectual do feminismo. O combate ao patriarcado e a defesa das mulheres é sobre a liberdade de escolha, sobre a poder usar ou não usar batom, poder usar ou não usar vestidos, pode ser progressista ou conservadora, poder ser lésbica, bissexual, heterossexual ou assexual. O que implica que não devem ser pressionadas ou julgadas pelas suas escolhas. Por ninguém, sob pena de se encontrarem sob jugos paternalistas.